QUANDO A VIDA É UMA EUFORIA

Em sua gama de suportes e expressões, a arte gráfica de Joana Lira carrega a emoção de quem
está falando de dentro e sobre sua casa. É no caldo efervescente e multicultural do carnaval pernambucano que ela estabelece conexões mais profundas entre as pessoas e as histórias. Se as cores, músicas, vestes, danças e personagens variados projetam e transformam a espiritualidade em festa e folia, a artista inspira e compartilha desta força coletiva e arrebatadora.

Joana expressa uma antropologia visual através de linhas pretas, vazadas e receptivas, que possibilitam a expansão de formas geométricas e cores vibrantes, além de vislumbres da fauna, a flora e nas simbologias locais. Ao mesmo tempo, estão implícitas e explícitas as sensações de euforia, alegria e sensualidade em seu trabalho. Falamos aqui em relações estéticas e de constituição do sujeito relacionados a cidade de Recife, reconhecendo e ativando suas raízes, além de promover uma nova educação estética pela sensibilização do olhar.

Buscando uma tonalidade experiencial, sem enveredar por linha retrospectiva, a mostra caminha por situações imersivas e documentais desta cultura carnavalesca, refletindo sobre como as representações gráficas de Joana Lira interagem com os sentimentos e emoções das pessoas. O transcender e o manifestar das profusões de cores e imagens, do erudito ao popular, expressas em fantasias, magias, sexualidade, mitos, humor: na essência, viver um carnaval de rua.

Mamé Shimabukurocuradora
Exposição Quando a Vida é uma Euforia, jan/2018

QUANDO TUDO EXPLODE

Joana Lira (Recife, PE, 1976), artista e designer, propõe para esta ocasião um gesto afirmativo, contingente e imponderável: lançar-se para frente, mover-se e ficar à vista; deixar-se contaminar pelo ambiente e despir-se de utilidade imediata, para enfim aloprar-se, integrando-se ao espaço arquitetônico. Esse é o desígnio de Quando Tudo Explode. A instalação aqui anunciada — que é, ao mesmo tempo, uma exposição — retoma e sintetiza a outra face de seu labor: a sua condição pública e poética no espaço construído, ora corpo escultórico, ora mural.

Do traço ao corte e recorte, do plano ao volume, da luz à sombra, da figura ao fundo, do contorno à cor, da natureza à figuração, do gesto à construção, tudo concorre no processo de trabalho da artista, sempre em caminhos de mão dupla. Tanto na intenção do projeto quanto na intervenção espacial da arte, ficam claros esses fluxos de invenção e composição. Da forma imagética e da técnica que sua obra evoca, revelam-se de forma franca seu repertório visual de berço, sua formação e experiência de vida, o que é evidenciado pelos objetos, gravuras, recortes, desenhos e experiências organizados em vitrine. Tudo isso, em conjunto, é enunciado em seu “mural-instalação”.

Nesse sentido, não há como, de imediato, não lançar luz sobre o repertório da arte brasileira do qual Joana é tributária e, mais ainda, sobre o que as mulheres protagonizam de maneira singular no campo da arte. Soma-se a isso o escrutínio recente, empreendido por ela, das noções de arte expandida ou ambiental no contexto de hoje, ancorado por uma paisagem brasileira onde se divisam os ritos interioranos e urbanos desde sua origem pernambucana. Aliás, dada a devida atenção ao trânsito de sua trajetória artística, consequente de seu deslocamento geográfico, a artista parece naturalizar a matriz afro-brasileira, o armorial e o moderno, e assim fundir a urbanidade de seu Recife natal e com a urbanidade de sua atual São Paulo.

Explico. Em primeiro lugar, vê-se na obra dela o reconhecimento imediato das figurações de um modernismo global, de Cícero Dias a Matisse. Isso posto, a arte pública modernista, ilustrada pelos painéis aderentes à arquitetura de Athos Bulcão e o paisagismo exuberante de Burle Marx, é também reverberada à maneira de um encontro entre a verticalidade do mural, os painéis do muralista e as formas orgânicas da terra brotadas pelo paisagista.

Em segundo lugar, e não menos relevante, os gestos femininos desassombrados de Tarsila do Amaral, Maria Martins e Regina Silveira são encontrados de forma indireta. Seguindo essa lógica, e em terceira condição, vislumbra-se a adoção de procedimentos em escala por parte da artista, próximos daquilo que conceituais de outrora — como Daniel Buren e Sol LeWitt — fizeram ao colocarem a arte em relação à arquitetura de forma indistinta e, por vezes, conflitante.

À vista disso, Quando Tudo Explode é a afirmação conflituosa da artista materializada no espaço da unidade do Sesc Santo André; um passo adiante e aloprado de seu trabalho rumo ao convívio público.

Diego Matoscurador
Exposição Quando Tudo Explode, nov/2017

A TRADIÇÃO DA MODERNIDADE

Quando olho para o trabalho de Joana Lira, me lembro do cordel. Vejo a mesma força expressiva que se originou nos limitados recursos técnicos da xilogravura, que depuraram todos os excessos resultando numa poesia visual única. Essa linguagem a princípio dura e sintética evoluiu na mão de grandes artistas (Suassuna, Samico…), que somaram uma visão fantástica e mitológica ao universo do cordel. Mas não é só isso. Vejo também os maracatus com suas indumentárias brilhantes, o Manguebeat e suas derivações, que resultam no uso de cores pulsantes e luminosas com contrates violentos e inusitados.

É nesta tradição que devemos ver o trabalho de Joana. Na transposição desta linguagem para a dimensão urbana da decoração do carnaval de Recife. No princípio timidamente e no final com muita competência, Joana talvez seja um elo importante na continuidade e modernização do universo visual pernambucano.

E essa é outra virtude da Joana. A partir do momento em que escolhe a linguagem correta para a mídia em que está atuando, entendendo como funcionam seus mecanismos industriais de produção, sua escala, as implicações urbanas e as condições de fruição do público, Joana está sendo uma designer de extrema competência. O leitor poderá ver ao longo deste livro como os desenhos saltam do papel para a escala urbana sem perder praticamente nada nesta transposição. Poderá ver também como Joana vai adquirindo segurança na criação de seus personagens inspirados nos mestres pernambucanos, nos últimos anos totalmente à vontade para brincar com estampas que preenchem seus personagens essencialmente gráficos e planos, numa paleta de cores particular, já pensando em como serão ampliados e produzidos.

A capacidade de unir a tradição local, a criação artística individual e a percepção dos processos industriais faz de Joana Lira uma excelente designer. Naturalmente brasileira, inevitavelmente pernambucana – mas de alcance global.

Kiko Farkas, designer gráfico
Livro Outros Carnavais, nov/2008.